segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Cacique

Cacique



H
á na vida certas coisas que, por mais que as pessoas enveredem por caminhos diferentes, jamais se esquecem. São fragmentos do passado que não escolhem, nem hora e nem lugar para emergir, crescer e fazer com que a alma da gente retorne ao passado e viva intensamente velhos fatos, mostrando-nos que aquilo nos marcou.

Fazia uma noite clara de outono. A lua espreguiçava-se nas areis mornas da estrada. Voltava eu, no viço dos meus quatorze anos, de um circo. De minha casa ao local do circo ia uma distância aproximada de nove quilômetros. Vinha só. Carregava ainda nos olhos a expressão alegre do palhaço e o sorriso convidativo e insinuante da garota que paquerava, quando o Cacique empacou.

A bem da verdade, a presença do palhaço e da garota como meus companheiros de viagem, era o escudo onde ocultava o meu medo.

Cacique, meu companheiro, confidente, em quem eu dava banho carinhosamente nas tardes de sábado, não podia fazer aquilo comigo. Não podia me expor àquele ridículo. Eu não podia voltar. Machucava meus brios. Feria meu orgulho. Frustava-me só em pensar.

Mas ele também tinha orgulho! Levantava a cabeça. Orelhas espetadas no ar. Abaixava-as. Farejava. Bufava. Sacudia. Ia. Voltava. Lutava consigo próprio. Olhos esbugalhados. Nervos tensos. Era a luta do irracional, da força bruta domesticada contra o Mistério.

Eu a tudo assistia. Creio pálido, mudo atônito, boquiaberto. Os minutos foram longas horas de agonia.

Ao longe um galo cantou. Fechei os olhos amargurando naquela hora toda a ironia que iriam sacar sobre mim.

Senti um resfolegar mais forte do animal. Vi que ele arrancava. Alguma coisa lanhava minhas pernas. O sangue corria.

Cacique parou docemente. Abri os olhos. O animal me olhava terno e meigo com seus olhos negros embaciados. Senti que ele me dizia: envergonhá-lo nunca!

E seguimos viagem.

VI/II/LXXVI


Nenhum comentário:

Postar um comentário