João do Zote
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e eu fosse era um carreiro eu botava esse muleque pra chamar os bois no meio do sapé e ainda dava uns coro nele”. Essa era a voz indecisa do Jão do Zote, pilheriando com o pessoal, na cozinha, sentado no rabo do fogão.
Mulatinho canela, filho de pai carreiro e de mãe lavadeira, tendo como único e exclusivo ideal a profissão do pai, vivia a rotar papo de comandar o carro de bois.
Jão do Zote tinha, por outro lado uma pequena frustração: era Baiano. Boi metido a touro, que vez por outra, colocava o Jão em situação delicada. Em vez do Jão ir buscá-lo, no mato, ele é que trazia o moleque de peito aberto e camisa esvoaçando, à sua frente.
Parece que o boi tinha loucura pelo Jão, pois sempre evitava maiores dificuldades, com as carreiras que dava no Jão para se aproximar da canga.
O carreiro, pai de Jão, morava distante e tinha que atravessar um riacho, que justamente nesses dias se encontrava em cheia. Cumpria ao Jão juntar os bois, para que quando seu pai chegasse, fosse tão somente necessário, atrelá-los e iniciar o serviço.
Jão, como de costume, juntou toda a boiada e partiu para buscar o Baiano. Este estava no lugar de costume, só não correu atrás do Jão. Jão gritava, fazia negaça, o Baiano estava quieto. Jão chegou mais perto, o Baiano nada. Colocou a mão no chifre do boi e este nem se importou.
O menino não sabia se ria ou se pulava de satisfação por ter dominado aquela fera que era o seu algoz de muitos anos.
Começou a gritar para que todo mundo viesse assistir a sua vitória.
No auge de sua euforia parou estupefato: dos olhos do boi rolavam lágrimas, sim eram lágrimas, ele não tinha a menor dúvida.
"Jão, cadê o boi?" perguntaram quando ele chegou. "Não pude trazê, ele tá chorando".
"Que correria é essa, Carmélia?"
"Vim aqui falá que o Zote caiu da pinguela e morreu afogado."
Adoro esse conto, me remete a infância e choro de emoção.
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